20.1.08
SOBRE TEMPO E JABUTICABAS
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para
viver daqui
para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como
aquela menina que
ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela
chupou displicente,
mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos
inflados.
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos
tentando destruir quem
eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e
sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem
prazos fixos para
reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem
para eventos de
um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para
discutir
estatutos, normas, procedimentos e regimentos
internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de
pessoas que, apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em
reuniões de
"confrontação", onde "tiramos fatos a limpo".
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo
majestoso cargo
de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "as
pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos".
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos,
quero a essência,minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado
de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se
encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não
foge de sua
mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e
deseja tão
somente andar ao lado de Deus.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
desfrutar desse amor
absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.